sábado, 18 de abril de 2015

Gringa - Capítulo Um

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     Passei o portão que separava a área interna do aeroporto, onde só quem está desembarcando fica, à área externa, onde todas as pessoas ficam, e senti o "cheiro americano". Chocolate quente da Starbucks. Era isso que cheirava.
     Continuei empurrando devagar o carrinho com minhas malas a procura de alguém identificado com a camisa da agência de intercâmbio ou qualquer coisa que me fizesse saber quem é responsável por me buscar. No meio da multidão de pessoas enfileiradas esperando por namorados, amigos, parentes, conhecidos, vizinhos, avistei do lado direito uma plaquinha escrita "Rafaela Pena". Apressei meu passo e andei em direção da plaquinha. Ainda não conseguia ver seu dono. 
     Foram necessários oito segundos para conseguir ver o dono da plaquinha sendo esmagado no meio daquele mar de pessoas. Haviam pelo menos umas 100 pessoas ali, com certeza alguém importante devia estar chegando.

     —Eu sou Rafaela Pena –falei para o cara que segurava a plaquinha - ou tentava, já que era um empurra, empurra.
     —Vamos dar a volta –ela falou bem alto e com um pouco de dificuldade, já que as pessoas que ali estavam falavam todas ao mesmo tempo. 

     Assenti e continuei andando até o final do corredor delimitado por uma faixa dos lados direito e esquerdo. Terminei o corredor e virei a direita, o lado que o meu responsável estava, e pude finalmente ver meu responsável - ou o que acho que é, já que só tem ele. Mais ou menos 1,75m, nem tão branco, nem tão moreno, magrinho do olhos e cabelo preto, organizado em um topete com quantidade aceitável de gel.

     —Eu sou Lucas, seu responsável legal aqui nos Estados Unidos, professor de inglês e com quem você vai morar nos próximos 12 meses –ele disse esticando a mão para mim e sorrindo em seguida. Olhei-a.
     —Eu sou Rafaela Pena, a garota que você será responsável legalmente aqui nos Estados Unidos, sua aluna e sua colega de apartamento nos próximos 12 meses –falei apertando sua mão e sorrindo no final.

                              ( ~ )

     —Pra quem vai passar 1 ano você trouxe pouca coisa –ele disse colocando minha segunda mala no porta-malas do carro. Haviam mais duas.
     —Que engraçado, todo mundo disse justamente ao contrário –ri.
     —Sério? Já vi garotas que vieram passar 1 mês aqui, trazerem o triplo de bagagem –ele disse colocando a última mala no carro —Vamos? –ele perguntou e assenti. 

     Ele virou pro lado esquerdo, lado da rua, indo para seu lado, o lado do motorista, enquanto eu apenas ia reto, abria a porta da frente e já entrava no carro. Próxima parada: minha nova casa.

     —Já que vamos morar juntos por um ano –ele começou a falar. Sua voz não era grossa, mas também não era fina, era normal —Acho que temos que saber um pouco do outro, só pra começar –ele me olhou rapidamente e voltou a olhar pra frente.
     —Tá –falei.
     —Eu sou Lucas, vim pros Estado Unidos quando tinha 17 anos, para fazer intercâmbio. Pretendia fazer direito internacional, então o inglês era fundamental. Apaixonei pelos Estados Unidos e fiquei por aqui mesmo, onde virei professor –ele falava sem tirar os olhos da rua e dos retrovisores.
     —Pretendia? Não pretende mais? –perguntei curiosa. Observava atentamente todos os seus movimentos. Ele fez um barulho com a boca indicando que não.
     —Eu preciso trabalhar para me sustentar aqui e seu começar uma faculdade, posso até trabalhar, mas além de não ganhar muito, todo meu dinheiro será revertido para a faculdade.
     —Mas você não tem nenhum parente no Brasil que possa te ajudar?
     —Hm, digamos que minha vinda definitiva pra cá não bem um assunto democratizado –entendi tudo. Os pais dele não deviam ter deixado-o vir pra cá —Meus pais não apoiaram muito a ideia de eu me mudar pra cá. Para eles era só fazer intercâmbio e pronto, mas cara, olha pra isso –ele soltou uma mão do volante e apontou com a mão para frente. Olhei para frente. Estávamos passando pela praia e seus coqueiros —Não tem como não apaixonar –ele colocou de novo sua mão sobre o volante.

     Eu sabia que devia parar de perguntar, que ele já havia falado bastante, mas meu lado curioso queria saber mais dele e de sua história.

     —E você pretende ser pra sempre professor de inglês? Não pretende fazer faculdade? –perguntei voltando a olhá-lo. Ele me olhou de soslaio e abriu um sorriso sarcástico.
     —Espero que tenha o mesmo interesse nas aulas de inglês –apesar de ele ter sorrido e olhado para mim, aquilo foi como um soco no estômago. Na hora entendi que não deveria, nem poderia perguntar mais nada.

     Encolhi-me na poltrona e fiquei quieta o resto do caminho todo.
     Cerca de 1h depois chegamos a casa dele. Uma casa muito bonita, por sinal.

     —A casa não é muito grande, mas dá para dividirmos tranquilamente –ele falou entrando com duas das minhas quatro malas. Acompanhei-o casa a dentro —Aqui será seu quarto –ele disse abrindo uma porta de madeira.

     Atrás da porta havia um lindo e aconchegante quarto de paredes creme. Em frente à porta, encontrado na parede, estava a cama de solteiro, em cima dela, uma prateleira média embutida, do lado direito havia uma lareira, com uma televisão presa a parede, em cima, e do lado esquerdo uma escrivaninha de madeira, com 2 prateleiras em cima.
     Lucas entrou com minhas mala e segui-o.

     —Aqui você tem um frigobar –ele apontou para o eletrodoméstico em baixo da mesa de madeira —Andando até aqui –ele deixou minhas malas no meio do quarto e andou até um espelho que ficava ao lado da porta —Você tem –ele empurrou o espelho como uma porta de correr —O closet –eu e ele entramos —Não é enorme, mas deve caber suas roupas –ele disse mostrando os espaços para colocar minhas roupas. O closet não era muito largo mas era bem cumprido —Os sapatos você coloca aqui –ele virou pra trás e mostrou que a parede inteira era pretendida com prateleiras para colocar sapatos. O mais legal de tudo era que tinha uma porta de correr transparente na frente, assim os sapatos não pegam poeira. A parte das roupas era assim também —O banheiro –ele começou a andar até a porta. Saímos e fechei a porta atrás de mim. Um espelho que vira closet, que incrível! Ele caminhou até fora do quarto e de frente pro meu quarto tinha uma porta —É aqui –ele abriu a porta e vi o banheiro. Limpinho. Obrigada senhor —Ou era o banheiro ou o closet no seu quarto, então... –ele deixou a frase no ar —Eu e você usaremos o mesmo banheiro, já que só tem esse, mas você pode deixar tudo o que você usa aqui –assenti —E se suas roupas não couberem no closet –ele passou por mim, deu uns três passos e chegou a uma outra porta, também de correr —Você pode colocar suas roupas aqui –ele disse abrindo a porta e revelando um guarda-roupa enorme, cheio de prateleiras e divisões. Fiquei apaixonada —Nessa outra porta –ele virou para a direita e já estava de frente para a porta. Segui com a cabeça e o olhar em direção a porta —É o meu quarto –ele abriu a porta e olhei rapidamente. Era uma cama de casal. Que inveja —Qualquer coisa que precisar, é só falar comigo –assenti —Aqui –ele saiu andando na minha frente e foi até a sala —Fica o telefone fixo –ele mostrou —Ele estará a sua disposição. Depois te ensino a fazer ligação –assenti —A cozinha está ali, o que precisar pode pegar na geladeira ou fazer, caso cozinhe –neguei com a cabeça —Você deve estar com fome, cansada e querendo tomar banho, só que temos que comprar um chip pro seu celular e fazer compras no mercado. Posso pedir uma pizza enquanto você toma banho e decidi se quer comprar o chip hoje e ir ao mercado comprar as coisas pra você comer? –ele perguntou e assenti —Pizza do que?
     —Suprema, da Pizza Hut –falei sem nem pensar. Ele falou um "ok" e fui até meu quarto.

     A casa era basicamente assim: você entra pela porta de entrada e vê a sala e a cozinha americana, do lado direito (há um corredor entre eles). Nesse corredor, indo reto você chega ao quarto do Lucas. Do lado direito, depois da sala, fica a porta do meu quarto, bem de frente pra ele fica a porta do banheiro (lado esquerdo) e a porta do guarda-roupa reserva (lado direito, logo depois da minha porta).
     Abri minha mala, peguei uma calcinha, sutiã, calça moletom e uma blusa de alcinha branca, minha escova de dente e caminhei até o banheiro.
     Escovei meus dentes, tirei minha roupa e fiz minhas necessidades. Lavei minha mão e entrei de baixo do chuveiro, relaxando os músculos ao sentir a água morna em meu corpo. A velocidade da água saía tão forte, que fazia massagem nas costas, assim como água de cachoeiras fazem.
     Apesar de querer ficar pra sempre debaixo daquela água, fiquei só o tempo necessário para lavar o corpo. Como não trouxe xampu, nem condicionador, não tinha como lavar meu cabelo.
     Abri a cortina do banheiro e, ainda sem sair dali, procurei com os olhos por uma toalha. Não achei em lugar nenhum. Sai de onde estava e procurei na bancada em baixo da pia. Nada. Droga.
     Pingando, e com frio, abri a porta do banheiro e coloquei apenas minha cabeça para fora.

     —Lucas –chamei e não obtive resposta —Lucas! –gritei.
     —Oi! –ele gritou de volta de algum lugar da casa.
     —Traz uma toalha pra mim, por favor –gritei e uns dois minutos depois ele me trouxe a toalha —Obrigada –falei e fechei a porta.

                              ( ~ )

LUCAS P.O.V

     Ontem acabei sentando sozinho na sala e assisti à um filme na televisão - a Rafaela preferiu ficar no quarto enquanto a pizza não chegava. Depois de séculos a pizza chegou e a Rafaela já tinha dormido.
     Comi sozinho, assisti um pouco televisão, me masturbei e fui dormir.
     Acordei bem disposto, porém com o braço dolorido. Culpa da bendita masturbação, tenho que parar. Esse é o meu problema, falo que vou parar, me masturbo e bate aquele arrependimento. Droga.

     —Bom dia –disse fazendo alongamento com os braços, enquanto caminhava em sua direção. Estava sem camisa, então facilitava os movimentos.
     —Bom dia –Rafaela disse baixinho. Ela estava comendo só a calabresa da pizza, que estava em cima do balcão da cozinha - ela estava sentada em uma das cadeiras altas, que agora esqueci o nome, do balcão.
     —Isso não é muito saudável como café da manhã –disse pegando uma calabresa. Ela não disse nada e pegou o pedaço de pizza dando uma mordida.
     —Está tudo bem com seu braço? –ela quebrou o silêncio. Olhei-a surpresa. Estava no fogão preparando para fazer panquecas.
     —Dormi de mal jeito –respondi-a. Ela balançou a cabeça e voltou a comer silenciosamente sua pizza —Vai querer panquecas? –perguntei de costas para ela.
     —Não, obrigada.
     —Torradas?
     —Pode ser.
     —Ok –falei e caminhei até onde ficava a torradeira. 

     Separei 8 fatias de pão de forma e coloquei 2 na torradeira, que já estava na tomada. Fui até a pia, quebrei dois ovos e coloquei-os na frigideira, preparando para fazer panquecas.
     O barulho de algo sendo fritado começou. Mantive a distância que estava do fogão e comecei a mexer no que estava na frigideira.
     Diminui a potência do fogão e deixei a panqueca ser feita.
     Virei para trás, caminhei até a bancada ficando do lado oposto à Rafaela, que continuava concentrada na sua pizza.

     —Por que está esse clima estranho? –perguntei apoiando minhas mãos na bancada e olhando-a. 

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