domingo, 9 de julho de 2017

#DiárioDaFaculdade: porque jornalismo não é para mim. A verdade sobre jornalismo #11

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Sabe quando, por muito tempo, você deseja muito uma coisa e dedica cada segundo da sua vida para conquistar aquela coisa e depois que conquista se decepciona por não ser aquilo que pensava? Então, foi exatamente isso que aconteceu comigo em relação a faculdade de jornalismo. Eu achava que era uma coisa e era outra coisa completamente diferente.

Eu entrei na faculdade de jornalismo pensando que conseguiria viver viajando o mundo e ganhar dinheiro com isso e se, por acaso, meus planos não dessem certo, eu ainda teria um diploma e poderia trabalhar como jornalista, porém logo no primeiro semestre deparei-me com a verdadeira cara do jornalismo. Jornalismo não é nada do que pensei.

Eu pensava que como jornalista eu elaboraria pautas de assuntos dentro da minha área (área de viagens, por exemplo, que era a área que eu queria) e publicaria, mas as coisas não são dinâmicas assim. Eu não tenho liberdade para escrever o que eu quero, eu escrevo o que a empresa que eu trabalho quer que eu escreva, do jeito que eles querem que seja escrito. Se eu quiser escrever sobre uma pauta que não compactue com os pensamentos da empresa que trabalho, aquela pauta não passará. Ou seja, muitas vezes vou escrever coisas que não concordo, simplesmente porque ou eu escrevo daquela forma ou perco o emprego. Aceita ou surta, as coisas são assim, não há dinâmica, não há conversa.

Outra coisa que me decepcionou muito e foi o ponto crucial para eu falar "não, jornalismo não é pra mim" foi o quesito "verdade". Verdade é uma coisa que não existe no jornalismo, o que existe são "versões". O jornal/a revista vai divulgar a notícia conforme eles querem que a notícia seja vendida, manipulando os cidadãos. Na prática funciona assim:

- O QUE ACONTECEU: jovem americano de família rica viaja para a Coreia do Norte, pensa que pode fazer o que quiser por ser rico e americano, desrespeita todas as regras do país, arranca um cartaz com propaganda do governo, é preso e condenado a trabalho forçado.
- O QUE A MÍDIA DIVULGA: jovem americano pega cartaz na Coreia do Norte, é preso e torturado, tudo por causa de um cartaz. Pobre rapaz, como o ditador da Coreia do Norte é um monstro. (veja como até o verbo eles escolhem bem, "pega" no lugar de "rouba")

Viram como funciona? A mídia muda os fatos para confirmar algo que eles dizem. A mídia insiste em dizer que o ditador norte coreano é um monstro, então eles vão manipular todas as notícias para incriminar o ditador e confirmar o que eles dizem.  (!!!) Queria deixar claro que, para mim, o ditador da Coreia do Norte é um louco, não estou defendendo-o, apenas dei um exemplo de como funciona a manipulação da mídia (!!!)

A terceira coisa que me decepcionou muito e me deu mais certeza que jornalismo não era para mim (apesar dos dois tópicos que eu citei já serem suficiente para perceber isso), foi o fato de a mídia colocar seus interesses particulares acima dos interesses da comunidade. Grandes empresas de notícias, que eu não citarei nomes, apesar da língua coçar, para não correr risco de ser processada, proíbem notícias sobre determinados assuntos. Não adianta, você pode escrever a melhor matéria sobre aquele assunto, mas a matéria não passará porque o editor chefe censurará a matéria.

Um exemplo de pauta censurada, por um jornal X, é "negro". Qualquer assunto sobre negros não será publicado porque é uma pauta proibida. Isso quer dizer que se eu vir um negro sendo espancado pelo motivo de ele ser negro, eu, como jornalista, não poderei divulgar esse acontecimento porque o jornal que eu trabalho não publica matérias sobre negros. "Mas ué, jornalista não é quem conta o que está acontecendo?" É exatamente isso que me deixa revoltada e isso me confirmou que jornalismo não é pra mim. Eu não quero ser uma pessoa que contribui para esse tipo de coisa (omissão de notícias e escolha de matérias ""mais importantes"") e não quero conviver com pessoas que pensam, aceitam ou omitem esse tipo de coisa, isso vai contra todos os meus princípios morais e éticos.

Jornalismo é ter que tocar na ferida de alguém, é ter que filmar a pessoa em seu pior momento, é ter que aproveitar da fragilidade de alguém para conseguir conteúdo, e eu não quero ser essa pessoa.

Pior que perceber que a profissão que você sonhava não é nada do que você imaginava, é ter que dizer para si mesmo: "Você não mudará o sistema, desista ou torne-se um deles".




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